Relendo Carl Sagan nas férias

por Ethevaldo Siqueira

A cobertura de várias missões do programa espacial norte-americano nos anos 1970 e 1980 possibilitou-me conhecer algumas figuras fascinantes. Tenho afirmado em meus artigos que um dos grandes privilégios do jornalista é conhecer pessoas muito especiais. Aliás, se tivesse de escolher a personalidade que mais me marcou, ao longo de mais de 40 anos de jornalismo, eu não hesitaria um minuto em dizer que foi Carl Sagan.

Considerado um dos cientistas mais brilhantes do século 20, o grande astrônomo norte-americano faleceu relativamente cedo, aos 61 anos, em dezembro de 1996. Conheci-o em 1976 no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL, de Jet Propulsion Lab), de Pasadena, na Califórnia, pouco antes do primeiro voo experimental do ônibus espacial Columbia, do Projeto Space Shuttle, da NASA.

Sagan era uma dessas pessoas inesquecíveis, fascinantes. Suas palestras eram disputadas por jornalistas do mundo inteiro. Mais do que sua cultura excepcional, o que nos encantava nele era a facilidade com que nos transmitia e nos traduzia em linguagem simples os conceitos científicos mais complexos. Carl Sagan tinha essa incrível capacidade de comunicação, tão invejada pelos jornalistas, que lhe permitia explicar tudo de maneira tão clara, precisa e interessante.

Carl Sagan faleceu em 1996,
aos 61 anos

Nunca vi ninguém mais apaixonado pela ciência, pela vida e pelo universo. Numa de suas palestras, quando ele preparava a série de TV e o livro Cosmos, no final dos anos 1970, provoquei-o com o tema recorrente do conflito entre tecnologia e humanismo. Queria saber, especificamente, sua opinião sobre as atitudes extremas, de deslumbramento ou pavor, com que as pessoas reagem diante das maravilhas tecnológicas. Sua resposta começou em latim: “In medio virtus (No meio está a virtude). Por maior que seja nosso entusiasmo pela tecnologia, precisamos manter o equilíbrio. Deslumbramento leva à perda do senso crítico. Pavor pode virar sentimento irracional. O que importa, da forma mais pragmática, é saber retirar da tecnologia tudo que ela nos pode dar de bom”.

Relax, relax

É o que tenho tentado fazer, à minha moda, um pouco epicurista. Por isso, nestes dias de muita preguiça, das festas de fim de ano, procurei utilizar a tecnologia apenas para meu entretenimento e lazer. É uma forma de compensar o cansaço diário acumulado em um ano de uso intensivo de ferramentas digitais e eletrônicas.

Esta é, para mim, a melhor época do ano. Por duas semanas, consigo dar uma bela parada e curtir a vida que pedi a Deus. Tenho relido Carl Sagan com imenso prazer, ouvido minhas músicas prediletas no silêncio da noite e revisto meus Blu-rays com os filmes e documentários que selecionei para estrear meu novo home theater. Ah, como é bom dormir e acordar a qualquer hora, desligar o computador e o celular por um dia inteiro, ignorar a pressão da internet e do Facebook que nos escravizam diariamente.

Libertei-me de todas as obrigações e da rotina, consegui tempo para ouvir alguns de meus melhores CDs, coloquei novas cordas em meu violino, redescobri livros incríveis, abasteci meu iPad com mais de uma centena de músicas clássicas e populares, remexi gavetas, reencontrei velhas geringonças, folheei documentos preciosos, mexi com diversos instrumentos musicais acústicos, joguei videogames com os netos (e perdi, é claro), instalei nova rede sem fio (Wi-Fi), reclassifiquei meus DVDs e Blu-rays, fiz uma uma faxina geral em meu escritório, limpei minha câmera filmadora High Definition e passei um dia inteiro cuidando de minha nova horta.

O que mudou

Nestes dias de descanso mais do que merecido, tenho refletido sobre os benefícios que a tecnologia nos proporciona a todos nós, cidadãos do século 21, que temos acesso, a qualquer momento, a repositórios tão ricos de cultura e de conhecimento. Olho à minha volta e me sinto realmente um privilegiado por tudo que tenho em minha biblioteca, meus CDs, DVDs, Blu-rays, iPods e iPads.

A geração de meus pais não tinha nada disso. Em minha infância, eu só dispunha da pequena biblioteca da família de, no máximo, 500 volumes. O resto vinha pelo rádio, jornal e uma ou duas revistas. E éramos muito felizes, mesmo assim. Tudo era mais calmo, com mais diálogo e mais contato humano. Minha mãe tinha tempo até para nos dar aulas de astronomia, nas noites estreladas de verão.

Quanta coisa mudou nesse campo. É claro que não me deixo levar pelo saudosismo. Tento juntar o melhor de dois mundos: o contato com a natureza e com a cultura. Graças à tecnologia digital, temos podido armazenar e acessar a todo o conhecimento humano, numa proporção mil vezes maior do que tudo que existia há 20 anos.

Com os recursos e facilidades da internet, mais de 2 bilhões de seres humanos já têm acesso instantâneo a todo tipo de informação, conectam-se a todos os computadores do planeta, aos portais, sites, blogs, museus, enciclopédias virtuais ou redes sociais. Com o smartphone, o celular 3G, os cidadãos se aproximam, se comunicam, falam, acessam a informação, baixam músicas, compram, vendem, em qualquer lugar, a qualquer hora.

Revendo Cosmos

Neste Natal, como acontece há alguns anos, senti ainda mais a presença de Carl Sagan, ao rever uma coleção de DVDs da série de televisão Cosmos, atualizada, que ganhei de meu filho, André. Coloquei o primeiro DVD no home theater e, sem perceber o tempo passar, sentei-me ao lado do grande astrônomo, naquela nave imaginária que nos levou a viajar pelo universo, com a leveza da flor de dente-de-leão, num passeio cósmico de milhões de anos-luz. Achei genial a reconstituição da Biblioteca de Alexandria.

Com este aperitivo de fim de ano, começo a pensar no que fazer em minhas próximas férias, em julho. Talvez vá para uma praia distante quase deserta, levando na bagagem, pela primeira vez, um iPad com dezenas de livros digitais armazenados (inclusive de Carl Sagan), o violão, o laptop para algum registro eventual e o iPod para ouvir minhas músicas preferidas, na rede, cochilando. De manhã, comprarei peixes fresquinhos de pescadores que voltam do mar e prepararei minha comida com a maior simplicidade.

É claro que, depois de duas semanas nessa praia, já estarei sentindo saudade da vida paulistana, das viagens agitadas, das feiras e seminários, do papo sempre enriquecedor com meus entrevistados, cientistas ou visionários. Mas resistirei ainda por alguns dias à saudade de São Paulo. Especialmente se me recordar de seu ar poluído, seu ruído, sua violência, seus congestionamentos monstruosos. Ou do noticiário sobre corrupção a que assistimos toda noite na TV.

De repente, prestes a concluir este post, lembrei de que as férias de julho estão distantes. Tinha coisa mais urgente a fazer, como fechar minha mala para voar ainda no domingo, 2 de janeiro, para Las Vegas, para cobrir o Consumer Electronics Show, evento mundial de áudio, vídeo, multimídia e eletrônica de entretenimento.

E voltarei, talvez, com uma nova visão do futuro e sugestões sobre o que a tecnologia nos reserva para a próxima década, de 2011 a 2020.
Fonte: http://www.ethevaldo.com.br/Generic.aspx?pid=3777

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