Academia de ciências nos EUA cria selo para livros ‘verossímeis’

Jane O’Brien – Da BBC News em Washington

Muitas tramas de romances policiais caem por terra quando os leitores desconfiam da verossimilhança dos acontecimentos. E enquanto escritores tentam garantir que suas histórias sejam críveis e plausíveis, uma organização científica dos Estados Unidos passou a oferecer um selo de aprovação para livros que acertaram na exposição dos fatos.
Não é uma tarefa fácil, a dos escritores. A ficção policial hoje requer um profundo conhecimento de áreas técnicas e científicas, essencial para o roteiro – e que muitas vezes leva a situações difíceis de serem descritas em palavras e de forma precisa.
Agora, a Academia de Ciências de Washington (WAS na sigla em inglês), criada em 1898 por Alexander Graham Bell – o inventor do telefone -, deu início a um projeto que dá selos de aprovação para livros que tenham fatos científico corretos.
“Muito lixo é publicado atualmente na área de ciência”, diz Peg Kay, escritora e membro da WAS. Segundo ela, esse declínio deve-se à pressão comercial e à falta de bons editores por esse declínio.
“Tudo que os agentes querem é atingir as massas. Ninguém sabe mais no que acreditar porque não há mais filtro.”
O presidente da WAS, Jim Cole, afirma que muitas pessoas acompanham séries de ciência da TV, como CSI, que podem dar a impressão de que a tecnologia pode resolver qualquer crime.
“A ciência da maneira como é percebida pelo público não é necessariamente a ciência correta”, diz Cole.
“Com autores publicando na internet sem editoras, acho que essa questão vai ganhar ainda mais importância no futuro, sobre o que é real e o que não é.”

Pesquisa
A maioria dos autores de renome estão cientes da importância de se fazer pesquisas extensas. Eles também costumam entrar em contato com especialistas.
“Sempre me preocupo em não errar”, diz John Gilstrap, autor de onze livros, vários deles na lista de best-sellers do New York Times. “Quanto mais detalhes houver em questões técnicas, o risco é maior. (Basta) Uma frase errada e é incrível o número de e-mails que você recebe dizendo que você cometeu um erro.”
O protagonista de muitos dos livros de Gilstrap é Jonathan Grave, especialista em resgate de reféns.
Enquanto Sherlock Holmes seguia pegadas, Grave usa tecnologia do celular, GPS e rastreia o uso de cartões de crédito.
“O desafio para mim era vender Grave como um cara tecnológico, sendo que eu não sou assim”, diz o escritor.
Gilstrap tem sido tão bem sucedido que um especialista militar chegou a acreditar que ele estava revelando informações tecnológicas secretas em um de seus livros.
“Mas eu não tinha revelado nada, inventei tudo.”

DNA
A maioria dos leitores está familiarizada com a tecnologia que Gilstrap usa em seus livros. Mas esse recurso é um fenômeno recente, afirma Kathy Harig, proprietária da livraria Mystery Love Company, em Maryland.
Ela lembra que o DNA foi a primeira descoberta científica que alterou a maneira com os romances policiais eram estruturados. Já a mais recente engloba tecnologias desenvolvidas na luta contra o terrorismo.
“Se tem terrorismo na sua história, você tem de estar por dentro do aspecto militar, como drones (aviões não tripulados), homem-bomba, explosivos, satélites”, diz ela.
Alexandra Hamlet, que ganhou vários prêmios com seu livro de estreia The Right Guard – um thriller sobre a Guerra Fria –, afirma que o terrorismo criou um novo gênero de ficção. Ela descreve seu trabalho como “suspense intelectual” e, para escrever, usa seu conhecimento como antropóloga e sua experiência como analista de inteligência do Exército americano.
Esse tipo de experiência no currículo é cada vez mais essencial quando se escreve sobre acontecimentos contemporâneos, diz Harig.
Diane Davidson escreve sobre a indústria da tecnologia de informação, onde já trabalhou. Seu próximo livro é sobre a suspeita de que implantes médicos podem ser vulneráveis a hackers.
“Esse é um exemplo clássico de uma forma de matar alguém”, diz Diane. “Estamos elaborando uma história em torno disso que seja plausível, mas ao mesmo tempo não seja uma espécie de manual sobre como matar alguém”.
Peg Kay, da WAS, conta que quatro selos de aprovação já foram concedidos pela academia desde que o selo começou a ser oferecido, em junho. E um quinto manuscrito está sendo analisado.

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